
29-08-06
Estou correndo, o coração disparado, não vou agüentar, sei que não vou. Estou numa cama, pessoas me rodeiam, eu choro, eu o ouço, mas não o toco, não posso. Sinto sua presença, chamo, paro pra escutar. Silêncio. Torno a chamar. Ouço uma música. Toca baixo, conhecida, o volume aumenta, reconheço o despertador do celular.Tento acordar, não consigo. Eu disse acordar? Estive sonhando? Parecia tão real...Estico o braço, ta muito longe, o celular toca, me viro, alcanço o objeto, desligo. Silêncio outra vez.
Fico parada, absorvendo o sonho, o coração ainda disparado. Preciso levantar, retiro o lençol, é agora ou nunca. Levanto, pego a toalha, abro a porta (bendita porta que ninguém arruma!) Procuro alguém, meu pai ta na sala. Tomo banho, ah, um banho, me troco, arrumo as coisas, to saindo – não vai tomar café não menina? Ah, num to com fome. Tchau pai! – ônibus, ta faltando gente, o ônibus quebra – ah, droga, logo agora?! – mudamos de ônibus, vamos em pé, fazer o quê? O curso, penúltima aula. Já? Não faz mal, tem outro depois, saindo do curso, dois malucos na parada – e esse ônibus que não chega... – passa uma van, Planaltina 600! Planaltina 600? Num tem vã pra W3...passa na vila? Passa sim, moça. Ah, eu vou. Entro, o cobrador quer conversar, não me oponho, logo estamos conversando sobre besteiras e coisas inúteis. Quero morar em Londres, não gosta de Planaltina? Não. Gosta de salada? Tenho uma amiga vegetariana. Comer só salada? Deus me livre! To com fome, vou comer ovo, vou almoçar na sua casa, claro que não, o povo vai entrando, vem aqui todo dia? Nesse horário? Não, terça e sexta, ah... A conversa continua, começo a sorrir, ele parece bobo, mas é legal, a lotação avança tá chegando, vira na esquina, pronto, aí, pode ser, tchau! Tchau!
Chego em casa – acabou-se a manhã de liberdade, agora só sexta-feira – os meninos já chegaram, porcaria de escola, nunca tem aula até o horário certo. Como foi a aula? – a mesma pergunta de sempre, como se fosse obrigação perguntar – ah, o Ônibus quebrou...Começa a narrativa, toda a minha manhã...o mesmo de sempre, eu falo, eles escutam, um ou outro comentário, troco de roupa,to indo!
A escola, ah, a escola, a mesma coisa de sempre, vejo Dayane. Oi pessoa, oi, Allan chegou, Ana vc ta bem? To indo, um pouco cansada, por quê? Parece triste, quer conversar? Ele pede, eu nego, ele torna a pedir, falo, paro, ele insiste, fala mais, ah...falar o quê? Análise, o que acha? Vc quer fazer? Paro, penso, quero? Quero. Então faz. Lorrane chega. O que aconteceu? Ta com uma cara...tô mal, muito mal? Penso comigo, pior que eu? Impossível! Como sou egoísta, volto minha atenção pra Lorrane, ta grávida? Não, brigou com o namorado? Também. Também? O que mais, segue-se a narração dos fatos, dois dias passando mal, brigando com a mãe – acho que fui possuída – a narração acaba. Quero morrer, diz ela. Morrer? Não, morrer não. Morte é entrega, vc tem que enfrentar, levanta a cabeça, vai a luta. Opa, digo isso pra ela ou pra mim? Paramos, damos conselhos, todos ao mesmo tempo, lave os cabelos, tome um banho, e só me volta aqui em paz, ouviu? Ouço-me dizendo. Mundo engraçado, eu, dando conselhos que não sigo...volto pra casa, chego, temor outra vez.
Abro a geladeira, não quero nada, bebo água, começo a ler, meu pai chega, quer ir no caldo? Não gato, vou não. Nem você Bia? Não pai, valeu, to com calor, ligo o computador – não vai lanchar Bia?Não, to sem fome! – ligo o pc, anda Isabelle, o rosto do Daniel, oi meu amor, tudo bem? Sorrio pra ele, invento uma resposta, começo a navegar. Orkut, msn não liga, ah, esquece o msn, num teclo mesmo, Word, música, who knew – não leia, não veja e não ouça coisas deprimentes, disse minha mãe. Fazer o quê? Não consigo... – mexo no Word, sai Gabriel! Começo a escrever. Escrevo, me liberto, relembro meu dia, não consigo mais, tenho que ir, até a próxima.